EDUCAÇÃO SEXUAL NO ÂMBITO FAMILIAR: ESTUDOS COM FAMÍLIAS BRASILEIRAS EM SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE SOCIOECONÔMICA
Nome: LIGIA CAROLINE PEREIRA PIMENTA
Data de publicação: 28/03/2025
Banca:
| Nome |
Papel |
|---|---|
| CELIA REGINA RANGEL NASCIMENTO | Presidente |
| PATRÍCIA DE OLIVEIRA E SILVA PEREIRA MENDES | Examinador Externo |
| SABRINE MANTUAN DOS SANTOS COUTINHO | Examinador Interno |
| SIMONE DOS SANTOS PALUDO | Examinador Externo |
| VALESCHKA MARTINS GUERRA | Examinador Interno |
Resumo: Esta tese teve como objetivo investigar e analisar as compreensões sobre a educação sexual entre famílias brasileiras de grupos economicamente desfavorecidos, direcionadas a adolescentes, bem como descrever e examinar as práticas educativas em sexualidade adotadas pelos responsáveis familiares. A pesquisa foi conduzida sob a perspectiva da Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano (TBDH) de Urie Bronfenbrenner, que postula que o desenvolvimento humano resulta da reciprocidade nas interações no ambiente imediato dos indivíduos. Destarte, para atender aos objetivos, a pesquisa foi organizada em um estudo bibliográfico e um estudo empírico, que resultaram na produção de quatro artigos científicos, orientados pelo prisma qualitativo, de caráter exploratórios e descritivos. A metodologia de análise empregada para análise dos dados apresentados em todos os artigos foi a Análise Temática, de Braun e Clarke. O primeiro artigo, de revisão narrativa da literatura brasileira, com recorte temporal da década 2012-2022, buscou responder a seguinte questão: Como as famílias brasileiras têm tratado do tema da sexualidade com seus filhos adolescentes? As bases de dados utilizadas para a busca foram: Scielo (Scientific Eletronic Library); Pepsic (Periódicos eletrônicos em Psicologia); LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde); Redalyc (Sistema de Información Científica Redalyc, Red de Revistas Científicas); Portal de Periódicos CAPES, e Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Após levantamento na literatura científica, foram encontradas 67 produções textuais, tendo sido selecionados 26 textos que compuseram o corpus de análise. Identificou-se temas que foram norteadores para a produção do texto, quais sejam: Educação Sexual pela perspectiva dos Responsáveis; Educação Sexual pela perspectiva dos Adolescentes; Questões de gênero e diversidade na educação sexual na família; A mãe como figura central na educação sexual dos adolescentes; Reflexões conclusivas sobre a educação sexual na família brasileira com adolescentes. A literatura demonstrou que as famílias brasileiras abordam a educação sexual de seus filhos adolescentes de forma pouco estruturada. Aspectos religiosos frequentemente prevalecem sobre um diálogo emancipatório, e, embora reconheçam a importância de acompanhar essa dimensão da vida dos jovens, na prática, essa orientação não se efetiva. Isso ocorre porque os adolescentes têm acesso irrestrito a conteúdos, muitas vezes inadequados, por meio das tecnologias e do compartilhamento de informações com amigos. Embora considerem a escola um espaço relevante para a educação sexual, as famílias tendem a preferir que o tema seja monitorado, evidenciando uma contradição entre as expectativas em relação à instituição e as limitações impostas ao seu trabalho. O segundo artigo teve como objetivo investigar as perspectivas e vivências de mães de adolescentes sobre a sexualidade humana. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 21 participantes, responsáveis por adolescentes (entre 12 e 18 anos). Os dados revelaram dois temas principais: Compreensões sobre a sexualidade no desenvolvimento humano e Vivência sexual das mães. Os resultados apontam para uma visão complexa e diversa da sexualidade por parte das participantes, que a entendem como um fenômeno que ultrapassa questões físicas, alcançando fatores emocionais, comportamentais e sociais. Essa aprendizagem se deu, de forma positiva ou negativa, na relação das participantes com sua família de origem e com parceiros atuais, além de ser mediada por crenças religiosas. A comunicação familiar e as políticas públicas contribuíram para as compreensões das participantes sobre sexualidade, mas não supriram todas as suas limitações sobre o tema. O terceiro artigo também foi realizado com as 21 participantes e objetivou investigar os desafios enfrentados pelas famílias ao abordar a educação sexual dos filhos, os recursos utilizados para tratar do tema, bem como analisar se essas práticas contribuem positivamente para as interações familiares, configurando-se como processos proximais. Os dados foram extraídos de entrevistas de roteiro semiestruturado e a análise apontou nove temas principais: Quem conduz e quando ocorre a educação sexual; Outros contextos envolvidos na educação sexual; Dificuldades e facilidades; Orientação parental; Impacto na dinâmica familiar; Estratégias de diálogo; Cobranças sociais; Abusos e assédio. Verificou-se que a família, especialmente pela participação das mães, é considerada o principal agente de educação sexual. Os pais foram avaliados como tendo participação limitada, demonstrando divisões de gênero. Observou-se o uso de estratégias de comunicação adaptadas ao desenvolvimento dos filhos, destacando a importância do diálogo aberto e consistente. Concluiu-se que a interação familiar mediada pela educação sexual, fortalece processos proximais, promovendo o desenvolvimento saudável de adolescentes e mães, conforme preconiza a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano. O quarto artigo teve como objetivo de investigar as concepções de quatro adolescentes, com idades de 13 e 14 anos, sobre a sexualidade e a educação sexual recebida no âmbito familiar. As adolescentes entrevistadas eram filhas de mulheres que participaram da coleta de dados nos artigos 2 e 3. Os dados coletados evidenciaram seis temas principais de análise, quais sejam: i) O que aprendeu sobre sexualidade?; ii) O que espera da família sobre a educação sexual?; iii) Concepções sobre sexualidade; iv) Como ocorre o desenvolvimento da sexualidade?; v) Contextos de aprendizagem sobre a sexualidade; vi) Vivências sexuais e reflexões. Constatou-se que as adolescentes percebem a sexualidade principalmente em sua dimensão afetiva e como forma de expressão de gênero. Algumas relataram dificuldades no diálogo familiar, atribuídas à timidez e/ou falta de interesse. No entanto, destacaram a importância da comunicação aberta como um elemento essencial para uma educação sexual eficaz no ambiente familiar. As participantes ressaltaram a necessidade de que as famílias estejam receptivas para discutir questões relacionadas à afetividade ao longo do desenvolvimento dos filhos, a fim de reduzir o sofrimento associado à orientação sexual e identidade de gênero. Esta tese contribui para a compreensão de como as famílias brasileiras economicamente desfavorecidas lidam com a educação sexual, revelando desafios, contradições e possíveis caminhos para aprimorar o desenvolvimento dos adolescentes por meio das interações familiares.
