ENTRE MORTOS, ENTIDADES E ASSOMBRAÇÕES: UMA ETNOGRAFIA DA PRISÃO PSME II

Nome: JOÃO PEDRO MONTOVANELLI MERISIO

Data de publicação: 27/02/2026

Banca:

Nomeordem decrescente Papel
CLARA MARIANI FLAKSMAN Examinador Externo
FABIO HEBERT DA SILVA Examinador Interno
JOAO JACKSON BEZERRA VIANNA Presidente

Resumo: Esta pesquisa direciona-se para a investigação das redes relacionais suscitadas pelo
entrelaçamento entre vivos e mortos na Penitenciária de Segurança Média II, em Viana,
Espírito Santo. Unidade Penitenciária esta que é referência no estado para a população
LGBTQI+, inaugurada no ano de 2021, e que segue sendo uma das poucas no Brasil a
atender esse recorte populacional de forma exclusiva. Os mortos emergem, assim, como
importantes atores na composição do cenário dessa cadeia, repletos de agência. Em outras
palavras, os mortos estão “vivos” em seus próprios modos de existir. A intrusão dos
outros-que-humanos não viventes no ambiente prisional abre caminhos para a análise sobre a
produção de cuidado e saúde nesse espaço em que a morte espreita a todo o momento a vida
daqueles que estão ali presos. Neste sentido, a Psicologia enquanto campo de saber e
produtora de intervenções na realidade do cuidado em prisões é afetada pela agência dos
mortos. Surgem entre os presos da PSME II inteligibilidades que acessam a experiência de
luto e memória; as manifestações de assombrações; e as experiências ritualísticas de
incorporação e mediunidade inscritas em cosmologias afro-brasileiras. Intentamos, ao
atencionar esse campo de relações, contraefetuar os modos contemporâneos de uma
subjetividade ocidental e capitalística que age por despovoar o mundo, abafando modos de
existência outros-que-humanos que coexistem e coproduzem o mundo em que vivemos.
Trata-se de uma pesquisa etnográfica que acontece num campo que é simultaneamente campo
de pesquisa e campo de trabalho, e que considera de forma constitutiva a participação do
pesquisador nas relações tramadas no encontro com o campo e seus atores. A etnografia
enquanto metodologia de pesquisa, e os mortos enquanto interlocutores na produção de vida,
marcam uma aposta transdisciplinar que abre poros na borda que contorna o domínio da
Psicologia, área de saber de onde parte esta pesquisa, colocando-a a se haver com um mundo
em ruínas, coproduzido por agentes humanos e outros-que-humanos, e que não se deixa
reduzir aos imperativos cientificistas da modernidade.

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